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Representação feminina na Câmara é a menor desde 1992

Das 27 cadeiras ocupadas pela atual legislatura, apenas uma é ocupada, pela tucana Gláucia Berenice

Gláucia Berenice (PSDB) é a única mulher em uma Câmara composta por 27 vereadores em Ribeirão Preto (Foto: Milena Aurea / A Cidade - 8.dez.2015)


Na semana em que foi celebrado o Dia Internacional da Mulher, a vereadora Gláucia Berenice (PSDB) foi cumprimentada por 26 colegas. Não tinha, porém, outra parlamentar para retribuir. Ela é a única mulher ocupando uma das 27 cadeiras da Câmara de Ribeirão Preto, na Legislatura com menor representatividade feminina desde as eleições de 1992.  

Um cientista político, Gláucia e outras duas ex-vereadores ouvidas pelo A Cidade citam que a sub-representação da mulher em cargos eletivos presente em praticamente todas as esferas políticas do País passa por um conjunto de fatores. Mas, principalmente, machismo e preconceito.  

A tucana cita que a reprovação da população às gestões da ex-prefeita Dárcy Vera e da presidente eleita e afastada Dilma Rousseff contribuíram para, em Ribeirão, a eleição de apenas uma mulher, pois reforçaram "um imaginário coletivo estereotipado de que nenhuma mulher serve na política".  

"A mulher precisa lutar para conquistar seu espaço desde o começo, concorrendo em condições desiguais com os homens nos próprios partidos. E, quando chega lá, tem que provar duplamente que é capaz. A sociedade fica só esperando o momento de você deslizar para reforçar a tese machista", diz Gláucia Berenice.  

Coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp Araraquara, o professor e cientista político Milton Lahuerta diz que a leitura da vereadora, de influência negativa da ex-prefeita nas urnas, é "plausível".  

"Isso apenas reforça o primitivismo e preconceito de nosso eleitorado. Afinal, com esta mesma leitura os homens não dão certo na política ao longo de séculos", provocou.  

Ele diz que a presença feminina na política da sociedade ocidental vem aumentando desde a década de 50, mas ainda não é a ideal. "É uma dominação masculina de milênios contra apenas um século de evolução", pontua.  

Vereadora com mais mandatos em Ribeirão Preto desde a redemocratização, Silvana Resende foi eleita quatro vezes.  

"As dificuldades das mulheres começam logo na decisão pela entrada na política, pois enfrentam barreiras profissionais e familiares muito maiores que os homens", diz a ex-vereadora.  

Depois, as candidatas enfrentam o preconceito nas urnas e no eventual mandato (leia ao lado). "É um caminho longo a percorrer ainda", atesta Gláucia. 

No executivo
Em 2016, foram 11 homens candidatos a prefeito e 10 a vice-prefeito em Ribeirão. A única candidata mulher foi Cleusa Colucci (PSB), vice na chapa de João Gandini (PSB). Ambos ficaram em terceiro lugar na disputa.  

Eleitorado não resulta em votos 

"Mulher acaba não votando em mulher". A frase é de Gláucia e das ex-vereadoras Viviane Alexandre (PSC) e Silvana Resende (PSDB) e encontra respaldo nos números.  

Nas eleições de 2016, 237 mil eleitores votaram diretamente em um candidato a vereador em Ribeirão Preto. Os demais não compareceram, votaram em branco, nulo ou diretamente nos partidos. As mulheres representam 54% do total do eleitorado local.
As urnas eletrônicas registraram 175 mulheres como candidatas à Câmara. Juntas, elas tiveram 34,5 mil votos - o que representa 15% da votação direta nos candidatos.  

Já os homens tiveram 376 candidaturas, pouco mais que o dobro das mulheres, mas receberam 202,9 mil votos diretos (85%) - quase seis vezes a votação feminina.  

Apenas seis mulheres ultrapassaram a linha dos mil votos a campeã feminina, Gláucia, teve 5,5 mil. Em contrapartida, 55 homens passaram esse patamar.  

Gláucia, Viviane e Silvana apontam que as mulheres acabam influenciadas pelos estereótipos presentes na sociedade de que não são aptas na política.  

Lembram, também, que muitas candidaturas são protocoladas pelos partidos apenas para cumprir a cota de 30% exigida pela Justiça Eleitoral.  

"A lógica machista pauta as próprias mulheres. Acham que a candidatura de uma delas vai ser menor ou que será atropelada se eleita, pois vai exercer o mandato em um mundo dominado por homens", explica o cientista político Milton Lahuerta.
Segundo ele, a situação pode ser comparada "com os mais pobres não votarem no Lula no início de sua trajetória, por não colocarem confiança em um semelhante". 

Temos que provar o tempo todo  

Silvana Resende lembra que, nos primeiros dos quatro mandatos como vereadora, sentiu na pele o machismo na Câmara. "Nós mulheres temos o tempo todo que provar que temos conhecimento das questões debatidas. Sentia que, para minhas ideias serem aceitas pelos vereadores, precisava ter um poder de persuasão muito maior do que o dos colegas homens com seus projetos", afirmou.  

Ela diz que estereótipo de que política é para homens acaba se tornando um bloqueio para que as mulheres ingressem na vida política. "Precisamos ter muito mais vontade do que o homem para lançar candidatura".  

Piadinhas e atitudes machistas  

Fazendo dupla feminina com Gláucia na legislatura passada, Viviane Alexandre foi a segunda mulher mais votada em 2016, mas não foi reeleita. Ela diz que foi alvo recorrente de "piadinhas, brincadeiras e atitudes machistas" por parte de alguns vereadores. "Para legislar, você não pode criar inimigos. Se não, se isola e acaba sem apoio para seus projetos. Então, muitas vezes temos que ignorar. Mas, quando a brincadeira passava do aceitável, eu batia de frente", afirma. Ela ressalta que a política "é um cenário predominantemente masculino" e, por isso, "as mulheres acabam não se vendo como opções de representatividade".

Composição da Câmara: 

1989 a 1992
21 homens

1993 a 1996
19 homens
2 mulheres (Delvita Alves e Joana Leal)

1997 a 2000
18 homens
3 mulheres (Dárcy Vera,
Joana Leal e Silvana Resende)

2001 a 2004
18 homens
3 mulheres (Dárcy Vera,
Joana Leal e Silvana Resende)

2005 a 2008 
17 homens
3 mulheres (Dárcy Vera, Fátima
Rosa e Silvana Resende)

2009 a 2012
19 homens
2 mulheres (Gláucia Berenice e Silvana Resende)

2013 a 2016
20 homens
2 mulheres (Gláucia Berenice
e Viviane Alexandre)

2017 a 2020
26 homens
1 mulher (Gláucia Berenice)

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