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| ACidadeON/Araraquara

Delegado diz que só prisão pode 'clarear' a morte de PM na casa de padre

Crime chocou toda a região e acabou com padre afastado do cargo ; três homens seguem foragidos da Justiça

 
 
 
 
Há uma semana, Araraquara, Matão e toda a macrorregião ficava assustada com a violência e curiosa em saber o que teria motivado um dos crimes mais graves e diferentes registrados nos últimos meses. Talvez, anos. A morte do sargento Paulo Sérgio Arruda, da Polícia Militar, executado com dois tiros dentro da casa de um padre, em Matão, revelou um escândalo que o sacerdote buscava esconder e ainda gera uma série de dúvidas. Os três homens apontados como autores do homicídio (e extorsão contra o padre) seguem foragidos.

Para o delegado Marlos Marcuzzo, de Matão, encarregado das investigações, até o momento, o caso não evoluiu. Ele espera a prisão dos acusados - que estão com mandado expedido pela Justiça - para que possa ouvi-los e tentar 'clarear' a investigação. A versão apresentada pela defesa, por ora, via imprensa, ainda não convence, segundo Marcuzzo. O advgado Luis Augusto Pena ficou de pedir uma série de perícias como proposta de apresentação do trio (dois deles são seus clientes). Até o momento, nada foi protocolado na Polícia Civil.   

O fato é que o caso foge a normalidade devido às várias facetas, em que, a princípio, ninguém fora totalmente inocente. Um crime em andamento (de extorsão sobre o vídeo em que o padre mantém relações sexuais com um dos acusados) tentou ser resolvido de maneira paralela, ou seja, sem a comunicação oficial das autoridades. Sendo o estopim para outros vários crimes e infrações. O ACidadeON ouviu praticamente todas as partes envolvidas direta e indiretamente neste quebra-cabeça ainda sem algumas peças. 

Até o momento, são três investigações em andamento: a principal delas da Polícia Civil, que apura o homicídio contra o sargento Paulo Sérgio Arruda, e a extorsão contra o padre Edson Maurício. A Diocese de São Carlos verifica a postura do sacerdote suspenso depois do escândalo do vídeo pornográfico e a Polícia Militar tenta entender por quais razões (que podem ir além da simples ajuda) os quatro policiais, entre eles, o sargento executado, saíram de Araraquara para ir até Matão resolver um crime em andamento de maneira informal.

Apesar da exposição, o padre Edson é considerado uma vítima no inquérito da Policia Civil de extorsão. Assim como o sargento Arruda também é a vítima do assassinato. Os demais pms, o garagista e dois colegas que estavam próximos viraram testemunhas no inquérito que apura o homicídio, assim como o sacerdote. O trio ligado a extorsão e ao homicídio, Edson Ricardo da Silva, o Banana, de 32 anos, Luiz Antônio Carlos Venção, 28, e Diego Afonso Siqueira Santos, 21, são, até o momento, os únicos considerados acusados de algum crime.  

Como começou a relação do padre e acusado? 

As versões se contradizem. Em depoimento à Polícia Civil, o padre Edson disse apenas ter se relacionado rapidamente com o xará, o ex-detento Edson Ricardo da Silva, o Banana, preso no passado por roubo e tráfico de drogas. Segundo o ACidadeON apurou, aos colegas, o padre teria confidenciado ter tido a chave da casa furtada pelo autor. Com essa chave, Banana armou para ser filmado mantendo a relação sexual com o padre com a intenção de extorqui-lo. O advogado de defesa encaminhou à reportagem uma foto da chave e o controle. Confirmou que elas foram cedidas pelo sacerdote. À Polícia Civil, o padre afirmou ter sido furtado. Mas, até o dia do fato, não tinha registrado Boletim de Ocorrência. 

O acusado, em entrevista à TV Record revelou que mantinha um relacionamento há mais de três anos com o padre. Esse contato frequente, inclusive, motivou a sua separação. A chave (que o padre alega ter sido furtada no dia da gravação do vídeo) teria sido dada pelo padre como um voto de confiança. Ele não explicou por que, de repente, resolveu filmar e extorquir o sacerdote. O delegado Marlos Marcuzzo, de Matão, por ora, tem apenas o depoimento do padre. Aguarda a prisão do acusado para confrontar as versões. E mais: buscar por provas materiais. 
 
   

Apavorado com a possibilidade de ter a vida pessoal revelada, o padre Edson buscou ajuda em Araraquara. Oficialmente, de acordo com o registrado até o momento pela Polícia Civil, ele conversou com um garagista. Este, por sua vez, afirmou ter se sensibilizado e comentado sobre o drama com um conhecido, o sargento Paulo Sérgio Arruda. O encontro teria sido casual pela Avenida Francisco Vaz Filho.

O policial, então, mesmo no horário de folga, ligado a outra religião e por conta própria teria acionado outros três colegas (um Sargento e dois Cabos). Juntos, os quatro viajaram de Araraquara para Matão, à noite, simplesmente para ajudar o padre. A ideia seria conversar com os acusados que apareceriam na casa do pároco para buscar parte do dinheiro da extorsão. Ou seja, situação de flagrante. Quando eles apareceram houve a confusão.

Arruda saiu do quarto onde estava escondido e levou dois tiros. Os disparos teria sido efetuados por Banana que fugiu de moto. Os outros dois colegas militares ficaram no quarto. O terceiro policial estava de carro rodando o bairro e não viu a fuga. O garagista, e mais dois colegas, que também estavam em Matão, mas fora da casa, só ficaram sabendo da tragédia quando o padre ligou minutos depois. Essa foi a versão apresentada na segunda-feira, logo depois da troca de tiros e morte de Arruda.

Essa mesma versão já apresentaria falhas, segundo o advogado de defesa Luis Augusto Pena. O horário da comunicação seria diferente do horário dito pelos autores. Os acusados confirmam a extorsão e sugerem que os tiros tenham sido disparados em uma ação chamada de fogo amigo. As armas dos pms foram apreendidas pelo Comando e não pela Polícia Civil, mesmo os calibres sendo diferentes. Um dos projéteis que atingiram o sargento poderá ser utilizado para exame de balística. Não foi informado se esse teste será requisitado.

A Polícia Civil aguarda mais documentos. O advogado de defesa quer outros laudos, entre eles, o residuográfico em todos os envolvidos. Por ora, ele não decidiu quando irá apresentar os acusados. A Polícia Militar instaurou sindicância interna para apurar o que os militares faziam fora do serviço. O tenente-coronel Adalberto José Ferreira, comandante do 13º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM-I), disse que, se houver a necessidade, a sindicância pode gerar um inquérito interno. A punição pode ser de uma advertência até a demissão.

Os três pms que estiveram no caso ainda não se manifestaram em público, assim como o padre Edson Maurício. A sua defesa só adiantou que deve tomar ciência dos fatos nesta próxima semana antes de qualquer comentário. O garagista disse ter feito o meio-de-campo entre o padre o sargento com a proposta de ajudá-lo. Ele nega qualquer ato ilícito. Essa versão da ajuda também não é fato concreto em nenhuma das três investigações. Também não está claro se o primeiro contato foi realmente com Arruda.  

Suspensão

Os três pms devem ficar fora das ruas até que a apuração seja concluída. O padre Edson também está suspenso de qualquer ação da Igreja Católica. Em nota, a Diocese de São Carlos disse que "diante das imagens e fatos atribuídas ao padre Edson Maurício, da Diocese de São Carlos, vimos ao público esclarecer que medidas canônicas foram adotadas de imediato. Tendo por base o Cânon 1395, parágrafos 1 e 2, do Código de Direito Canônico, o padre foi suspenso de todas e quaisquer atividades, incluindo o ofício de Pároco da Paróquia de Santo Expedito, na cidade de Matão".

Coube ao bispo Dom Paulo Cezar Costa lamentar o fato que "humildemente pede desculpas aos fiéis católicos, aos homens e mulheres de boa vontade, por este ato isolado contra conduta moral e os valores evangélicos; de maneira particular aos fiéis da Paróquia de Santo Expedito, diante desta situação de escândalo causada pela ação do padre. Reafirmamos que a Diocese de São Carlos não compactua com atitudes que possam gerar o contratestemunho dos valores de Jesus Cristo e de sua Igreja".

A nota informa ainda que o padre segue a disposição da Justiça para esclarecimento do caso. "A Diocese de São Carlos reafirma os valores e as qualidades presentes nos padres que compõem o seu Clero, homens que se doam com alegria no testemunho de Jesus Cristo, na Evangelização e na Missão", informa o texto. "Temos um compromisso com a sociedade. Este compromisso visa dignificar as pessoas e reavivar a esperança. Pautados na Palavra e na Missão, seguiremos no árduo trabalho de superar os desafios e promover a unidade, com transparência e princípios evangélicos".

Quem são os acusados?


São três os suspeitos que fugiram em duas motos: Edson Ricardo da Silva, de 32 anos, nascido em São Carlos e egresso da cadeia em fevereiro de 2006, após envolvimento com roubo e tráfico de drogas. Ainda teriam participado do caso Luiz Antônio Carlos Venção, 28, também com passagens criminais anteriores por roubo, furto e receptação e que saiu da prisão em julho de 2013; e Diego Afonso Siqueira Santos, 21, que, segundo o delegado Marlos Marcuzzo, de Matão, só teve problemas com a polícia quando era menor de idade.

Quem era o sargento Arruda


Policial experiente e bastante respeitado pelos colegas. Era também temido e odiado pelo acumulo de prisões e de ocorrências mais graves em que se envolveu. Entre elas, algumas resistências seguidas de morte. Sargento da Força Tática, ele era casado, pai de três filhos e comemorava na segunda-feira, justamente o dia em que morreu ao ser executado na casa do padre, em Matão, o fato de ter sido absolvido de uma acusação no atendimento de ocorrência. Em novembro do ano passado, foi homenageado pela Câmara Municipal.  
 


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