'Ele nasceu para jogar bola', diz pai de Ailton Canela, morto em queda de avião

Ailton Silva fala do seu orgulho pelo filho e da dor da tragédia que abalou a família matonense

    • ACidadeON/Araraquara
    • Tom Oliveira
Tom Oliveira
Ailton lembra do filho com orgulho (Tom Oliveira/Tribuna)


"Ele nasceu para jogar bola. O sonho da vida dele era ganhar a vida no futebol. Ele estava muito contente com o desempenho do time, estava em festa. Era o momento mais feliz dele no futebol", diz Ailton Palhano da Silva, de 72 anos, pai de Ailton Canela, jogador de 22 anos, natural de Matão, que morreu na queda do avião que levava a delegação da Chapecoense a Medellin, na Colômbia.

VEJA VÍDEO

O meia-atacante Canela, junto de todo time catarinense, vivia o êxtase de chegar, pela primeira vez na história, a uma decisão da Copa Sulamericana. Com muito trabalho e doses de sofrimento, o clube foi derrubando, um a um, vários gigantes do futebol latino.

O jogador matonense entrou no segundo tempo da partida contra o Palmeiras, que marcou o título de campeão brasileiro do Verdão. Antes da partida, foi a última vez que ele falou, por telefone, com seu pai, aqui em Matão.

ACidade ON - Araraquara
Família confirmou a morte de Ailton, conhecido como Canela (foto), durante a manhã desta teça (29) (Divulgação)

 

"Desde os dois anos de idade, o único brinquedo dele era a bola. Quando tinha cinco anos, jogava de igual para igual com a molecada mais velha. A gente sabia que ele tinha talento e que poderia vestir a camisa de um grande clube e, por que não, da Seleção Brasileira", conta o pai.

O meia-atacante morava em Chapecó junto da mãe. Seu dois irmãos e o pai permaneceram em Matão. Mesmo longe de casa, o sonho de Canela era ajudar sua família. "Ele ia dar dinheiro, agora no final do ano, para eu rebocar minha casa. Não queria nada disso, só queria ele aqui perto de mim, vivo", diz o pai.

Canela deixa uma filha, Bárbara, de dois anos, que nasceu após um relacionamento na cidade de Bebedouro. A menina mora com a mãe.

A tragédia
Era pouco mais das 4h da madrugada quando a família recebeu a notícia de que algo havia de errado com o avião que transportava o time catarinense.

O pai conta que ligou a TV e já passou a acompanhar as notícias, ainda desencontradas, do acidente. Só por volta do meio-dia é que as esperanças de encontrar o filho vivo foram se acabando. Até aquele momento, não havia chegado uma confirmação exata de que ele estava entre os mortos, mas também não estava entre os poucos encontrados vivos.

O pai foi para a casa da filha, Daiane Cristina da Silva, 26, junto do irmão Luciano Marcelo Alves, 30. Luciano não quis falar à imprensa, mas, a amigos, reclamou sobre a injustiça de se interromper a vida de um jovem tão promissor. Durante todo o dia, familiares e amigos foram até lá prestar solidariedade.

"Metade de Matão conhece o Canelinha. Ele foi criado aqui jogando bola. Tem muitos amigos. Parece que vou acordar e perceber que é um sonho, de que ninguém morreu", emociona-se o pai.

Tom Oliveira
Familiares receberam visita de amigos em casa (Tom Oliveira/Tribuna)

 

Primeiros chutes no futebol
Logo aos seis anos de idade, Ailton Canela, que preferia ser chamado de Juninho, já desfilava talento com a bola no pé. Todos percebiam e cobravam do pai para levá-lo ao projeto social de ensino do futebol 'Bom de Bola, Bom na Escola', da empresa Citrosuco. Foi no pequeno campo que ele aprendeu a jogar futebol.

Lá, ele foi treinado por quatro anos por Fábio Henrique Scardoeli. "Você via nele que ia ser jogador de futebol. O que mais chamava a atenção nele era a humildade e a educação. Nunca me levantou a voz", conta o treinador.

Canela ficou no projeto social até os 16 anos, idade limite. Depois disso, foi descoberto em 2002 em uma peneira com Ademir da Guia e entrou no sub-17 e sub-20 da Inter de Bebedouro, rodou pelo Vitória do Espírito Santo e pelo Monte Azul Paulista antes de chegar ao Botafogo de Ribeirão Preto, onde foi titular e campeão da Série D do Campeonato Brasileiro.

Em junho deste ano, após um período de incertezas, ele chegou à Chapecoense. Em sua rede social, no dia da apresentação no Verdão do Oeste, ele disse "mais uma nova etapa na vida. Vamos nos doar ao máximo para atingir o objetivo do clube."

Por ser jovem, o meia-atacante matonense ainda era reserva, mas já vinha tendo chances constantes no time de Caio Jr.

Matão em choque
A notícia da morte de Aílton Canela chocou a cidade de Matão. Amigos e muitos moradores adotaram a 'ChapeTerror', um dos times mais simpáticos do País, como seu time do coração por conta do amigo. "Era um cara humilde e que o sucesso não subiu à cabeça. Eu o respeitava e o admirava muito", disse o inspetor de qualidade Rodrigo César da Silva, 32.

A processadora de dados Fabia Julião, 39, vizinha da família, comenta que é uma notícia impactante. "De um jovem promissor que estava levando o nome de Matão até para fora do País, de repente, se tornou uma enorme tristeza", lamenta. 


0 Comentário(s)

Seja o primeiro a comentar.