Crise com árabes prejudicaria vendas de R$ 1,2 bi na região de Ribeirão

Jair Bolsonaro cogita transferir embaixada brasileira de Israel para Jerusalém, medida estremeceu relações com Liga Árabe

    • ACidadeON
    • Cristiano Pavini

 

Colheita de cana-de-açúcar em Batatais, uma das cidades exportadora para países árabes (Foto: F.L Piton / Jornal A Cidade  - 8/8/2014)

A provável crise diplomática com países árabes, deflagrada se presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) mantiver a intenção de transferir a embaixada brasileira de Israel de Tel Aviv para Jerusalém, prejudicaria um comércio bilionário dos municípios da região metropolitana de Ribeirão Preto com nações da Liga Árabe.  

No ano passado a região metropolitana exportou US$ 334 milhões (o equivalente, no câmbio atual, a R$ 1,249 bilhão) para os 22 países que compõem a Liga Árabe. Desse montante, US$ 302 milhões (90,4%) são relativos à exportação de açúcar. Em seguida estão carnes de animais (frescas ou congeladas), que representaram U$$ 11,4 milhões.  

Dos 34 municípios que compõem a região metropolitana, dez exportaram ao menos US$ 1 milhão para países árabes em 2017.  

O ranking é encabeçado por Pradópolis (US$ 127,7 milhões), Sertãozinho (US$ 107 milhões) e Batatais (R$ 44,9 milhões), todos produtores de açúcar. Ribeirão Preto exportou US$ 2,8 milhões relativos a, principalmente, aparelhos de medicina e odontologia.  

O levantamento foi feito pelo ACIdade ON no portal Comex Stat, abastecido com dados oficiais pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.  

Os principais países importadores da região metropolitana são Argélia (US$ 70 milhões), Emirados Árabes (US$ 66,8 milhões) e Egito (US$ 63,8 milhões).  

Foi do Egito, aliás, o principal recado do descontentamento árabe com a possibilidade de mudança da embaixada brasileira em Israel. Na segunda-feira (5), o governo egípcio cancelou, em cima da hora, um compromisso oficial que teria com o Ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.  

"Nas relações diplomáticas, tudo tem um sinal. Desmarcar a visita de um chanceler, em um prazo tão curto de tempo, pode ser considerado uma retaliação", explica Nilo Scandaroli, coordenador do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da ACI (Associação Comercial e Industrial) de Ribeirão Preto.  

Nilo explica que em 2010 o Egito assinou um acordo de livre comércio com o Mercosul, com redução de taxas e burocracias. Ele foi promulgado e entrou em vigor no ano passado.  

"Com isso, há uma facilidade das empresas brasileiras adentrarem no mercado do Egito, o que favorece a região de Ribeirão Preto com a exportação de açúcar. Um eventual corte diplomático afetaria toda a região", pontua.  

Ele lembra que, na Agrishow de 2018, o cônsul geral do Egito em São Paulo visitou Ribeirão Preto e empresas mostraram interesse, também, em importar defensivos agrícolas.  

"No comércio exterior, tempo é dinheiro", afirma Nilo, explicando que uma crise nas relações diplomáticas, mesmo que passageira, pode abrir espaço para que outros países adentrem no mercado árabe e substituam as transações hoje feitas com a região de Ribeirão.  

Nilo diz não acreditar em embargo econômico (quando um país proíbe importações de outro), mas teme que, se a proposta de Bolsonaro for levada adiante, ocorra um aumento de burocracias e diminuição de facilidades às empresas brasileiras por parte de países árabes.

Prejuízo
Em entrevista ao ACidade ON o presidente da Câmara Árabe-Brasileira, Rubens Hannun, foi claro: "Não podemos abrir espaço para outros concorrentes".  

A Câmara Árabe aponta que, em 2017, o Brasil exportou US$ 13,6 bilhões para a Liga Árabe, que conta com 22 países. Em 2016 foram US$ 11,4 bilhões.  

"Os países árabes querem aumentar o comércio com o Brasil. Eles têm simpatia pelos brasileiros e reconhecem a qualidade dos nossos produtos", explica.  

O açúcar corresponde a terço das exportações brasileiras para a Liga Árabe, com US$ 4,6 bilhões. A região de ribeirão-pretano teve participação de 6,5% nesse montante açucareiro.  

Rubens aponta que "qualquer ruído", como a possibilidade de transferência da embaixada em Israel, pode prejudicar o mercado.  

Cita, por exemplo, que a Índia é um "grande produtor de açúcar" e poderia abocanhar parte do mercado brasileiro na Liga Árabe.  

Ele ressalva, porém, que o governo brasileiro ainda não bateu o martelo pela mudança da embaixada em Israel. "Há um momento de expectativa, aqui e lá, de que as relações se mantenham como estão, de forma equilibrada".  

 

Entenda o caso
A disputa por Jerusalém é milenar. Em 1947, a ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou o Plano de Partilha da Palestina e determinou a criação de dois estados na região, um árabe e outro judeu. Pela resolução, Jerusalém considerada terra sagrada pelas religiões judaica e islâmica - seria áreas sob controle internacional.  

Desde então, a região é palco de conflitos pela dominação do território, com Israel, pela sua força militar, expandindo seu domínio na área árabe.  

Atualmente, Palestina e Israel querem tornar Jerusalém sua capital. A cidade já é dominada pelos israelenses, prática considerada ilegal pela ONU.  

A maioria dos países considera Tel Aviv a capital de Israel. No ano passado, porém, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu transferir a embaixada norte-americana para Jerusalém.  

Essa é a proposta de Bolsonaro, conforme declarou esta semana.  

A postura, porém, é fortemente criticada por países árabes, que podem iniciar represálias diplomáticas e comerciais.  

Rearranjo  
Luciano Nakabashi, professor da FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP e coordenador de um boletim de comércio exterior, diz que os países árabes podem substituir com relativa facilidade os países fornecedores de açúcar, por ser uma commodity sem alto valor agregado.  

Ele diz, porém, ser necessário analisar o mercado para verificar se algum país consegue, a curto prazo, produzir o produto em quantidade suficiente para atender o consumo interno e ter excedente para abastecer um novo mercado.  

O professor aponta, também, que se perder influência no mercado árabe, as empresas da região de Ribeirão podem compensar ingressando em outros países. "Pode ocorrer algum efeito pontual negativo, mas depois o mercado pode se rearranjar".
 

Usinas 

Em nota enviada ao ACidade ON, a Única (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) afirmou que "está acompanhando as notícias sobre medidas que podem abalar as relações comerciais entre o Brasil e os países árabes e que precisa analisar com mais profundidade as possíveis consequências e efeitos econômicos para o setor, caso essa decisão seja efetivamente tomada".


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