Nomes de inscritos na caravana de Isaac Antunes foram usados em fraudes

Depoimentos ao MP comprovam que movimento Muda Ribeirão, criado pelo vereador, cedeu cadastro para advogados presos

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    • Marcelo Fontes
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Nomes de cadastrados na caravana Muda Ribeirão, criada pelo vereador Isaac Antunes, fora usados em ações fraulentas ajuizadas por advogados presos pela operação Têmis (Fotos: Reprodução Facebook)


Depoimentos colhidos pelo Ministério Público comprovam que a caravana ‘Muda Ribeirão’, que o vereador Isaac Antunes (PR) promoveu no período pré-eleição 2016, forneceu dados cadastrais das pessoas para a associação de advogados, acusada pela Operação Têmis de promover ações fraudulentas na Justiça.

O ACidade ON teve acesso ontem aos documentos. As vítimas eram atraídas sob o pretexto de ‘limpar o nome’ e era feito o cadastro e cópias de documentos pessoais. A promessa era que o nome seria limpo em até 30 dias.

Ocorre que, segundo os depoimentos, o cadastro foi utilizado de forma indevida por uma associação de advogados em ações fraudulentas.

As vítimas também assinavam, sem conhecimento, declarações de pobreza, o que evitava o pagamento de custas processuais. Em caso de vitória nas ações, o lucro ficava para os advogados. Em caso de derrota, não seria necessário o pagamento das custas.

O promotor Aroldo Costa Filho aponta, ainda, que o vereador obteve benefício eleitoral no esquema, já que as pessoas, esperando a limpeza do nome, podem ter votado em Isaac no pleito de 2016, quando teve 3.111 votos.

Várias ações
Em um dos casos a que o ACidade ON teve acesso, uma mulher afirma que foi surpreendida com quatro ações em seu nome. Ela chegou a encaminhar uma certidão para a 4ª Vara Cível explicando a situação.

No documento, a vítima afirma que assinou a procuração que consta no processo, mas “fez em decorrência do projeto ‘Muda Ribeirão’, encabeçado pelo vereador Isaac Antunes, onde foi informada que o procedimento seria para excluir seu nome dos órgãos de proteção de crédito”. O documento tem data de 9 de maio de 2017.

A investigação do Ministério Público e da Polícia Civil confirma que o mesmo aconteceu com outras pessoas, que foram “chamadas por integrantes da equipe de campanha de Isaac Antunes” para que seus nomes fossem limpos sem qualquer custo.

“O então candidato a vereador, por intermédio de sua equipe, arrecadou documentos dessas pessoas e os entregou para os investigados advogados, que propuseram ações judiciais em nomes das referidas pessoas, sem o consentimento”, aponta documentos do Ministério Público obtidos pela reportagem.

Veja outros relatos de vítimas na página ao lado. A reportagem mantém os nomes em sigilo pela segurança dos depoentes.

 

Reprodução Facebook
Ministério Público Estadual vai pedir à Justiça Eleitoral que investigue o vereador Isaac Antunes

Eescola municipal
A caravana ‘Muda Ribeirão’ de Isaac Antunes usou a estrutura de escolas municipais durante o cadastramento das pessoas. Um dos eventos, por exemplo, foi realizado em abril de 2016 na escola Honorato de Lucca, no bairro Salgado Filho, zona Norte de Ribeirão Preto.

Em nota, a Secretaria da Educação informou que “não tinha conhecimento desses atendimentos”. A pasta disse ainda que não tem não nenhum registro na atual administração sobre o caso.

investigação na justiça eleitoral

Para o promotor Aroldo Costa Filho, o caso envolvendo Isaac Antunes precisa ser investigado. Ele está remetendo todos os documentos da Operação Têmis para a Justiça Eleitoral.

“Fica evidente que o então candidato Isaac Antunes obteve lucro eleitoral com o esquema envolvendo os advogados e o Muda Ribeirão”, disse o representante do Ministério Público.

No entanto, especialista ouvido pelo ACidade ON aponta que investigações eleitorais posteriores ao pleito só são realizadas em casos específicos.

 

‘Um grande equívoco’, diz Isaac

O vereador Isaac Antunes divulgou nota ontem afirmando que “está acontecendo um grande equívoco” em relação às acusações do Ministério Público.

“Estão confundindo um sério movimento social que teve a participação de diversas pessoas e que se iniciou com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, denominado “Muda Ribeirão”, com a associação ‘Ribeirão Pode Mais’, que possui CNPJ e endereço fixo”, disse o vereador, através de nota.
Isaac Antunes voltou a afirmar que “não possui ligação com o escritório e nem com a associação”.

 

Acusações podem mudar comissões da Câmara

As acusações envolvendo o vereador Isaac Antunes devem mudar os rumos das comissões permanentes da Câmara de Ribeirão Preto. Até o início da semana, era dada como certa a manutenção de Isaac no comando da Comissão de Justiça, a mais importante da casa.

Ontem, porém, membros do bloco dos 15, grupo ao qual o vereador do PR faz parte, já admitiram rever a situação. O tema foi debatido, inclusive, em uma reunião da Mesa Diretora realizada ontem à tarde na Câmara. A escolha dos membros das comissões ocorrem em 1º de fevereiro.

A composição do Conselho de Ética também é analisada com cuidado. Além do caso de Isaac, a comissão terá que investigar Adauto Marmita (PR), acusado pelo Ministério Público de promover bailes funk que terminaram em confronto com a Polícia Militar (PM).

O bloco dos 15 tinha cogitado indicar Otoniel Lima (PRB), Isaac Antunes, Marmita e Nelson das Placas (PDT) para o Conselho. A quinta vaga ficaria com o a base governista.

O presidente Igor Oliveira (MDB) disse ontem que a Câmara vai tomar todas as medidas cabíveis assim que o recesso terminar. “Será dada ampla defesa a quem for acusado e a investigação vai correr dentro da legislação”, disse


Foragido
O advogado Gustavo Caropreso de Oliveira (foto), um dos foragidos da Operação Têmis, foi candidato a vereador nas eleições de 2016.

Ele concorreu pelo PPL, que integrou a coligação Ribeirão Somos Nós junto com a Rede. Gustavo obteve 172 votos (0,07% do total). Ele gastou pouco mais de R$ 2 mil na campanha.

Entre os doadores de recursos estavam Ruy Rodrigues Neto, da Associação Pode Mais (outro foragido) e o advogado Klaus Philipp Lodoli, preso anteontem pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.

 

 COMO FUNCIONAVA O ESQUEMA:

1. Caravana Muda Ribeirão do vereador Isaac Antunes passava com carro de som chamando as pessoas com o nome sujo

2. Era prometido a ‘limpar o nome’ em 30 dias mediante a assinatura de documentos

3.As pessoas, porém, assinavam procurações e declarações de pobreza

4. Os advogados entravam com ação sem o consentimento das pessoas

 


Confira o relato de vítimas dos advogados

Caso 1 - Em junho de 2016, o candidato Isaac Antunes passou com um carro de som chamando as pessoas com o nome sujo. Dias depois, se dirigiu ao escritório de campanha de Isaac Antunes. Assinou papéis e forneceu cópias de documentos pessoais

Caso 2 - Em abril de 2016, compareceu à quadra da escola Honorato de Luca, no Salgado Filho, pois o candidato Isaac Antunes passou com carro de som convidando pessoas com o nome sujo, para limparem. Foi prometido que, em um mês, o nome estaria limpo

Caso 3 - Antes da eleição municipal, foi chamada por uma amiga para comparecer à casa de uma mulher, no Quintino Facci I, pois o candidato a vereador Isaac Antunes estava convidando as pessoas com o nome sujo para limparem. Ela desconfiou da conduta e não assinou os documentos

Caso 4 - O candidato a vereador Isaac Antunes passou com um carro de som convidando as pessoas com o nome sujo. Também era oferecido algodão doce. Foi prometido que o nome seria limpo em até um mês. Assinou uma procuração e uma declaração de pobreza

Caso 5 - Em maio de 2016 o candidato Isaac Antunes passou com um carro de som convidando as pessoas a limparem seus nomes. A equipe do candidato tinha 10 pessoas. Alguns papeis foram assinados e cópias de documentos pessoais foram tiradas

Caso 6 - Em 9 de maio de 2017, descobriu que quatro ações tramitam em seu nome. Os documentos foram assinados no projeto ‘Muda Ribeirão’ do vereador eleito Isaac Antunes. Mas foi informado, na época da assinatura, que seria apenas procedimento para limpar o nome
 

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