Cícero Gomes, o grande articulador político em Ribeirão Preto

Vereador por 40 anos seguidos, era o homem, que sozinho, tinha o poder de decidir a votação de um projeto na Câmara

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    • Wesley Alcântara
Matheus Urenha / A Cidade
Afastado pela Justiça e derrotado nas urnas, Cícero Gomes está fora do Legislativo após 40 anos (foto: Matheus Urenha / A Cidade)

 

-Não, não tem como votar. Não existe consenso! Então, está zero a zero.

Era o que respondia o vereador Cícero Gomes (PMDB) a qualquer vereador da base governista de Dárcy Vera, quando questionado sobre como deveria ser a votação do Plano Diretor, na sessão do dia 8 de dezembro de 2015. A frase curta era uma ordem. Ninguém contestava ou tentava convencê-lo do contrário. Simplesmente seguia o voto definido por ele.

- E aí, Baiano?

Questionou o vereador Capela Novas (PPS) enquanto beliscava uma fruta na sala aos fundos do plenário.

-Não. O governo que mande outro plano.

O “não” de Cícero teve o efeito dominó sobre o restante dos vereadores governistas. Resultado final? O Plano Diretor foi rejeitado. A votação contrária foi uma retaliação ao Executivo por manter um artigo que restringia a expansão imobiliária na zona Leste (área de recarga do Aquífero Guarani).
Nos bastidores, donos de construtoras pressionavam os vereadores para que eles rejeitassem qualquer proibição.

Servidores nas mãos

Com 40 anos de mandato ininterrupto, Cícero não precisava ser o presidente da Mesa Diretora para ditar as regras internas no Legislativo. Para ter a fidelidade dos servidores, principalmente dos comissionados, o peemedebista os compensava financeiramente. Mesmo fora da presidência, ele autorizava a concessão de RTIs (Regime de Tempo Integral), benefício que triplicava o salário do servidor.

Em abril de 2016, um servidor foi até o gabinete para avisá-lo que o salário não tinha caído na conta. Em crise financeira, a prefeitura tinha atrasado o repasse do duodécimo.
Irritado, o peemedebista telefonou para a prefeitura e passou a seguinte ordem:

- O dinheiro tem que ser debitado ainda hoje. Tem que ser hoje e não amanhã.

Antes das 17h, o Executivo fez o repasse, garantindo a regularização do pagamento dos servidores da Câmara.

Na Educação, Cícero mantinha influência direta na nomeação das diretoras. Antes do estouro da Sevandija, quando questionado sobre o risco de perder esse controle, numa eventual vitória de Duarte Nogueira (PSDB). Ele era enfático:

- Será que ele vai querer mexer naquilo que está bom?

Nogueira venceu a eleição e Cícero foi rejeitado nas urnas e, após décadas, está longe da Câmara e da articulação política. 

Milena Aurea / A Cidade
Walter Gomes, ex-presidente da Câmara de Ribeirão Preto (foto: Milena Aurea / A Cidade)

 

Walter contra rufino

Em julho de 2014, a relação da então prefeita Dárcy Vera com sua base aliada já estava bastante estremecida. E o clima piorou com a contratação do cientista político Luiz Rufino – um ferrenho crítico do governo desde 2009 e da Câmara – para ser chefe de gabinete no Palácio Rio Branco. A publicação da portaria com a nomeação do novo assessor caiu como uma bomba no Legislativo.

– Quê? Não, mais essa da Dárcy, não.

Esbravejou o presidente da Câmara, Walter Gomes, ao ser informado sobre a nomeação. Inconformado, o vereador bateu a mão na mesa e telefonou para a chefe do Executivo para pedir explicações.

Ao atender a ligação de Walter, Dárcy se adianta para avisá-lo sobre uma ajudinha.

- Walter, mandei limpar o campinho do Ipiranga.

Nem mesmo a “boa notícia”, que atendia o interesse do vereador, foi capaz de acalmá-lo.

- Você fez isso? [Referindo-se a nomeação de Rufino]. Esquece, Dárcy, você não terá mais o nosso apoio.

Pega de surpresa e sem entender o esbravejamento do presidente da Câmara, a prefeita fica em silêncio por alguns instantes, mas continua ouvindo Walter.

- Dárcy, você contratou o Rufino? O cara só mete o pau na Câmara, em você.

- Ele não vai mais falar mal da gente. Consegue entender isso, Walter? Está tudo certo. Agora ele é nosso!

O presidente desliga o telefone e começa articular retaliações, como a rejeição de projetos de interesse do Executivo. Dárcy estava certa. Rufino nunca mais foi visto fazendo críticas em programas de televisão ou rádio.

Weber Sian / A Cidade
O ex-superintendente da Coderp, Davi Cury (foto: Weber Sian / A Cidade)

 

Contrato da atmosphera

Em dezembro de 2014, o então superintendente da Coderp, Davi Cury (PMDB), toma uma decisão: deixar o cargo. O peemedebista não consegue conter a pressão por parte dos vereadores governistas para que ele não rompesse o contrato com a Atmosphera, como recomendava o Tribunal de Contas do Estado. Reunido com o direitor financeiro da companhia, Ricardo Ribeiro, Davi não parava de atender as ligações telefônicas dos parlamentares.

- Ricardo, está difícil. Cada instante um deles pressiona. Eu não vou sujar meu nome só para continuar com a Atmosphera. Ao romper o contrato, Davi sai de férias e viaja para os Estados Unidos. Ribeiro fica interinamente na superintendência. Pressionado, retoma o contrato com a Atmosphera
e sofre um princípio de infarto. Já Davi, ao voltar
para o Brasil, anuncia a saída da Coderp.

Análise - Clientelismo: forma de suborno

“Considero o clientelismo - uma prática bastante comum entre vereadores e o prefeito - como um ato bastante nocivo à comunidade. Isso porque, quando o chefe do Executivo atende a um favor de um vereador, ele está simplesmente favorecendo uma parcela restrita. E o atendimento desse favor acaba revertendo em voto para o vereador.

Defino o clientelismo como um forma de subordo - ou seja, você (político) atende ao meu interesse que compenso com votos na eleição para assegurar sua permanência no poder. Os políticos não podem colocar o interesse particular acima do interesse público. Assim, o prefeito deve governar para um todo. Já o vereador não pode atuar simplesmente para defender os interesses de uma classe, mas de toda a população.

Cabe aos vereadores deixarem de lado os interesses próprios e cumprir o verdadeiro papel - ou seja, o de fiscalizar o Executivo com imparcialidade e de legislar. Yuri Félix Araújo, cientista político e especialista em marketing político

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