Dos estúdios para o mandato

Três campeões de votos que emergiram do rádio ou da televisão em Ribeirão Preto afirmaram, ao A Cidade, que o contato com as demandas da população motivou o ingresso na vida política

    • ACidadeON/Ribeirao
    • Cristiano Pavini

Igor Oliveira, Welson Gasparini e Coraucci Netto (fotos: Matheus Urenha, Weber Sian / A Cidade e arquivo pessoal)

 
Três campeões de votos que emergiram do rádio ou da televisão em Ribeirão Preto afirmaram, ao A Cidade, que o contato com as demandas da população motivou o ingresso na vida política. Veja, abaixo, como radiodifusão e mandato se relacionaram na vida do vereador Igor Oliveira (MDB), do ex-prefeito e deputado estadual Welson Gasparini (PSDB) e do ex-vereador Coraucci Netto 

Igor Oliveira

O atual presidente da Câmara e vereador mais votado desta legislatura, com 8,5 mil votos, conta que aos cinco anos já atuava com comunicação ao lado do pai, o hoje deputado estadual Léo Oliveira (MDB). "Eu era palhaço de circo, o Pipoquinha".  

Lembra que, desde criança, vivenciou a rotina de política e jornalismo do pai. "Com dez anos, cantava nos showmícios das campanhas dele". Em 2004, começou no jornalismo e, seis anos depois, passou a apresentar programa televisivo. "Minha paixão é a comunicação, não conseguiria deixar de ser apresentador".  

Igor afirma que o pai não queria que ele se candidatasse a vereador, mas a decisão estava tomada. A motivação era "atender algumas demandas da população que, pela televisão, não era possível". Ressalva que "a população tem todo um desencantamento com a política, mas eu entrei pensando em fazer a diferença".  

Ele diz que "o fato de ter visibilidade ajudou bastante" na votação, mas que o resultado veio também pelo corpo a corpo da campanha. "Visitei muitos bairros, fui de casa em casa. Arregacei as mangas".  

Welson Gasparini  

Considerado pelo pesquisador Reinaldo dos Santos o "homem da mídia mais bem sucedido da política ribeirão-pretana", Welson Gasparini foi eleito vereador em 1959, quando tinha 23 anos. Quatro anos depois, assumiu o primeiro dos quatro mandatos à frente do Palácio Rio Branco.  

Hoje, está no terceiro mandato como deputado estadual e já foi, também, deputado federal. "O rádio foi muito importante, indiscutivelmente. Me tornou conhecido. Mas havia outros fatores também, eu participava de movimentos sociais", conta. Ele ingressou no jornalismo como repórter do jornal Diário de Notícias e, depois, se tornou radialista. Atuou, também, como animador de programas de auditório. Afirma, porém, que o essencial para ingressar na política foi a religião.  

"Havia um incentivo da igreja para fazer a diferença na vida pública". Sobre a influência do rádio no surgimento de lideranças políticas em Ribeirão Preto, ele diz que o veículo proporciona "uma comunicação muito grande" com a comunidade. "O rádio é importantíssimo para sentir o que a população está precisando".  

Coraucci Netto  

"Eu amo o rádio, essa é a minha vida". Coraucci Netto dedicou 59 dos 76 anos ao radialismo. Começou aos 18 anos e não parou mais. Mesclou a vida nos estúdios com o plenário da Câmara Municipal: teve sete mandados, sendo que em três deles, consecutivos, foi o vereador mais votado (eleições de 1988, 1992 e 1996).  

Não acredita, porém, que a atividade nos microfones tenha sido o fator principal nas urnas. "O rádio te possibilita ficar conhecido, mas para o bem e para o mal. O eleitor pode ser seu ouvinte, mas daí a votar em você é outra história". Seu ingresso na política ocorreu após a eleição do irmão, Coraucci Sobrinho, em 1976, para a Câmara.  

"Passei a ser procurado por munícipes para demandas como recapeamento, melhorias na cidade. Anos depois, decidi que queria me candidatar para ajudar a população". Debutou no pleito de 1988, sendo o mais votado, com 8.073 votos. Diz, porém, que o rádio não foi determinante nas reeleições posteriores. "Se eu não tivesse sido um bom vereador, sequer seria reeleito". Aposentou na política - o filho, Jean Coraucci, foi eleito nas eleições passadas.  

Características da República dos Locutores segundo o livro O Cajado de Mentor (Arte / A Cidade)

Das fazendas aos microfones 

No livro "O Cajado do Mentor", os pesquisadores afirmam que Ribeirão Preto passou por três períodos de dominação política.  

A primeira é chamada de República dos Coronéis. "Grandes proprietários de terras, sobretudo cafeicultores, utilizavam seu poder econômico, suas relações sociais, a máquina pública e a violência para se eleger vereadores e deputados", diz o livro.  

Nas 15 legislaturas compreendidas entre 1890 a 1932, segundo os pesquisadores, 80% dos vereadores eram fazendeiros. Em 1908, por exemplo, 10 dos 11 parlamentares eram proprietários de terras.  

Depois, a partir de 1920, começou a República dos Bacharéis: advogados, médicos, dentistas, engenheiros e professores, chamados de "doutores", começam a dominar a política. Segundo os autores, há o surgimento "de novos atores políticos, sobretudo profissionais liberais e funcionários públicos graduados".  

A partir de 1948 (de 1937 a 1946, durante o Estado Novo, não ocorreram eleições para a Câmara), o domínio passa a ser dos radialistas.  

Começa, então, a "República dos Locutores". Segundo os autores, em todas as eleições entre 1969 e 2004, três dos cinco vereadores mais votados em cada legislatura foram "homens de mídia".
  
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