Baleia Azul faz vítimas na região e acende alerta máximo

Jogo suicida que tem gerado preocupação mundial atrai crianças e adolescentes com desafios macabros

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    • Lucas Catanho
Weber Sian / A Cidade
'Sentei com ele e mostrei que é um assunto sério. Expliquei as consequências porque senão pode passar batido. Meu filho estava pensando que era só um boato', diz a comerciante Camila Messias Silva, 43 anos, mãe de Orlando, 12 (Foto: Weber Sian / A Cidade)

 

Sequência de 50 desafios que envolvem isolamento social, automutilação e incentivo ao suicídio de adolescentes, o jogo Baleia Azul já é investigado como possível causa de jovens que tentaram ceifar a própria vida no Brasil. A situação motivou o alerta máximo dado por especialistas.

Na região o jogo da Baleia Azul é realidade e quase fez uma vítima fatal nesta semana. Moradora de São Carlos, a mãe de um adolescente de 15 anos fez um desabafo no Facebook.

“A tal Baleia Azul quase levou meu filho. Ao ver os braços dele cortados, me senti um lixo. Conversei por horas com ele, ora conversava, ora chorava desesperada”, afirmou a mãe.

O jovem usava apenas blusa com mangas compridas. Amigos viram a foto que o adolescente postou em uma rede social com os braços cortados e alertaram a direção.

Em Boa Esperança do Sul, a secretaria de Educação investiga se o jogo também está por trás da automutilação de seis alunos de 12 e 13 anos. Eles foram encontrados ontem com braços e pernas cortadas por lâminas de apontadores.

A psicóloga Danielle Zeoti diz que os adolescentes mais suscetíveis ao jogo são os que têm algum tipo de conflito afetivo, uma angústia muito marcada, sofrimento, ou os extremamente tímidos, alvos de bullying, com dificuldades de relacionamento.

“Por outro lado, se o adolescente tem uma família estruturada, acolhedora, com momentos para diálogo, ele se sentirá acolhido e estará mais protegido”, diz a psicólogoa.

Pânico

A comerciante Camila Messias Silva, 43 anos, recebeu e quase aceitou, na semana passada, a solicitação via Facebook para o jogo Baleia Azul. Na ocasião, ela ainda não sabia do que se tratava.

Anteontem, recebeu um alerta sobre o perigo do jogo, via WhatsApp. Em pânico, Camila conversou com o filho, Orlando, 12 anos, sobre a situação e alertou a família.

“Não dá para controlar tudo o que ele vê na internet, então sentei com ele e mostrei que é um assunto sério. Expliquei as consequências porque senão pode passar batido. Meu filho estava pensando que era só um boato”, afirmou a comerciante.

Educação aciona diretores de escolas

A Secretaria Municipal da Educação informou que tomou conhecimento do desafio da Baleia Azul pelas redes sociais e que “alertou os diretores para que monitorem possíveis comportamentos dos adolescentes que indiquem a participação em tal jogo”. “A ideação de suicídio infanto-juvenil também se combate com compreensão afetiva no ambiente escolar”, afirmou a secretária Suely Vilela.

Apesar do alerta, a secretaria informou que não foram detectados casos na rede. Já a Secretaria de Estado da Educaçã informou ter elaborado um plano de ação para alertar a comunidade escolar sobre “as questões relacionadas ao modismo de jogos para adolescentes”. “Uso de jogos em redes sociais, acompanhamento de comportamentos novos ou estranhos, excesso de atenção nas redes são alguns dos temas que estão presentes no material.”

Jogo tem origem russa

O jogo Baleia Azul tem origem russa, vindo de um grupo conhecido como “#F57”, investigado por induzir mais de 130 jovens, principalmente na Europa, a cometerem suicídio desde 2015. Tudo começa com um convite para a página privada e secreta desse grupo no Facebook, e nela um instrutor passa alguns desafios aos novos jogadores. No total são propostos 50 desafios, como escrever com uma navalha o nome daquele grupo na palma da mão, cortar o próprio lábio, desenhar uma baleia em seu corpo com uma faca, até chegar ao desafio final, que ordena o suicídio. Após a vítima iniciar os desafios, ela não poderá desistir. Caso pretendam desistir, participantes são ameaçados pelos administradores do game.

Ribeirão não registra casos

Em Ribeirão Preto, nenhuma família ainda procurou a polícia para relatar algum caso relativo ao jogo Baleia Azul, prática considerada crime de instigação ao suicídio e que pode ser extensiva a qualquer um que convide ou compartilhe para outra pessoa jogar.

O crime é previsto no artigo 122 do Código Penal, com pena de prisão de dois a seis anos, e pode ser duplicada se a vítima for menor de 18 anos (situação predominante dentre as vítimas desse jogo).

Se o jogador desistir e sofrer ameaças, o acusado pode responder pelo artigo 147 – “ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave”. A pena é de detenção de um a seis meses ou multa.

Até agora, ninguém ainda foi preso acusado de promover o incentivo ao suicídio por meio do jogo.

Arte / A Cidade

 

Análise>>>A melhor forma de ajuda é a conversa

“As pessoas próximas a esses adolescentes não podem abordá-los de forma agressiva, sob o risco de afastá-los mais. É preciso observar os sinais, verificar se o adolescente está diferente, isolado. O mais importante é que os pais, professores e amigos tenham compreensão, carinho e se disponham a ajudar sem censuras ou críticas. A melhor forma de ajuda é a conversa. É preciso saber o nível de comprometimento do adolescente em relação ao jogo e buscar, dentro do possível, um profissional que possa ajudar de fato. Alguns só precisam de uma conversa em casa, outros de medicação e, nos casos extremos, uma internação para tirar todo o tipo de tecnologia. Como os jovens escolhidos para o jogo já estão vulneráveis, as pessoas próximas não devem invadir seus espaços, confiscar os celulares e computadores e usar a violência para tirá-los do jogo. Muitos pais chegam com inabilidade, como se fossem detetives, quando o que precisam é fazer o adolescente perceber que terá ajuda”.

Alexandrina Meleiro, coordenadora da Comissão de Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria 

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