'História do Dia' completa um ano e vai virar livro

Blog da jornalista Daniela Penha contou 207 histórias de pessoas comuns de forma extraordinária

    • ACidadeON/Ribeirao
    • Valeska Mateus

 

Jornalista Daniela Penha conta histórias de pessoas comuns de forma extraordinária (Foto: Weber Sian / A Cidade)
   

Há um ano a jornalista Daniela Penha se dedica a contar histórias de vida, memórias e experiências humanas no blog História do Dia. Agora esse "patrimônio humano" vai ser imortalizado nas páginas de um livro, que deve ser lançado durante a 18ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto.  

Daniela acumulava sete anos de experiências em redações quando decidiu trocar a rotina corrida do jornalismo diário pelas descobertas do outro e das histórias por trás de cada um. "Não estava contente. Queria uma rotina mais branda e que me envolvesse mais com o ser humano", conta.  

O sonho começou a ser moldado ainda no seu curso de jornalismo, na Unesp de Bauru, ao ler obras da jornalista e escritora Eliane Brum e conhecer o Museu da Pessoa, de São Paulo. "Desde a universidade isso foi muito forte em mim. Mesmo no jornal diário sempre pensei em focar as matérias na pessoa e na sua história", conta Daniela.  

O foco do blog, segundo ela, é encontrar o surpreendente naquilo que parece simples e o lema: "todo mundo tem uma história para contar".  

Em um ano foram 207 histórias publicadas. "A única regra é que as histórias sejam positivas, que compartilhem coisas boas com quem lê. Mesmo que tenha sido uma história triste, mas tenha deixado uma lição positiva", explica a jornalista.  

Durante seis meses, Daniela estruturou o projeto e criou o blog. Para o lançamento, criou um banco com 30 histórias. A cada dia publicava uma. Mas esse era o maior desafio, revela. "Como sou sozinha, aos poucos percebi que esse volume não se sustentava, pelo próprio ritmo de trabalho e pelos leitores", revela.  

Hoje, são publicadas três a quatro novas histórias por semana e há o link "Vale a pena ler de novo", no qual, segundo Daniela, ela dá uma chance nova a alguma história.

Presentes   
Em dezembro último, Daniela ganhou dois "presentes de Natal". O primeiro foi o convite da jornalista Ana Cândida Tofeti de Oliveira, da Outras Palavras Comunicação Empresarial, de Ribeirão Preto, para fazer um livro. A ideia fazia parte do sonho original. "Acredito que esse conteúdo precisa ser guardado e preservado. Foi uma alegria, uma conquista", afirma.  

Para as páginas de papel irão 50 histórias das 192 produzidas em 2017. A jornalista revela que a seleção tem sido um processo difícil, por conta da relação afetiva que cria ao ouvi-las e escrevê-las. "Estou tentando pegar histórias de pessoas mais tradicionais, que já tenham uma identificação por parte do ribeirão-pretano e as mais lidas no blog", revelou.
Mas ela não vai parar por aí. O objetivo é fazer um livro por ano.  

O segundo presente foi a aprovação do História do Dia pelo ProAC (Programa de Incentivo à Cultura), autorizando que empresas possam apoiá-lo por meio do repasse de ICMS. Hoje o blog é mantido pela própria Daniela, por pequenas doações feitas através do PagSeguro e assinaturas de R$ 13 mensais. 

"Tive muita dificuldade em conseguir patrocínios. O único, por apenas três meses, foi o próprio empresário que me procurou. Com a chancela de ter aprovação da Secretaria de Cultura do Estado, o projeto entra numa nova fase", afirma.
Esses dois "presentes" soaram para Daniela como uma demonstração de que ela está no caminho certo. "Traz a validação de ter largado o jornalismo diário, que minhas escolhas foram corretas", comemora.

Valor   
Daniela diz nunca ter imaginado que o projeto faria tão bem às pessoas. Elas se sentem valorizadas ao verem sua história publicada. "Percebo também que ficam felizes de serem ouvidas. Hoje as pessoas não se escutam mais", lamenta. 

A jornalista também se sente gratificada pelos retornos. "Recebo mensagem de leitores que passaram a ter um novo olhar sobre determinada pessoa, que de um olhar de preconceito passam a ver algo positivo. A empatia de se colocar no lugar do outro", conclui.

Olho no olho
Os personagens do História do Dia surgem para Daniela Penha por indicação, em encontros no Calçadão de Ribeirão Preto, em suas saídas para "caçar histórias" e através de pessoas que desenvolvem um trabalho já conhecido pela jornalista.  

"Às vezes vou para o Calçadão e fico ali buscando histórias de quem passa, de artistas de rua... De alguém que parece uma história simples, descubro que a pessoa viveu um milhão de coisas. O que me emociona e me deixa tocada é a simplicidade com que as pessoas falam de coisas muito ricas. Pessoas sem muito escolaridade que falam coisas lindas", revela.  

As entrevistas são feitas "olho no olho". "O contato visual e físico com a pessoa é fundamental. Consigo sentir ela melhor, observar reações, entender a pessoa e assim levar o máximo de detalhes sobre ela ao meu leitor", justifica.  

Daniela se surpreende a cada dia com as memórias que ouve, assim como o próprio personagem, que muitas vezes acredita não ter histórias importantes para revelar.  

Entre as tantas memórias marcantes do último ano, a jornalista destaca a primeira de todas: a do Geraldo da Sorveteria, que morreu em agosto do ano passado, aos 78 anos. "Por ser a primeira que contei e se tratar de um ícone muito querido, amado e humilde... a forma como ele tratava as pessoas me marcou demais", conta a jornalista.  

Ela também cita a história de Laura, menina que nasceu prematura com apenas 500 gramas e cujo crescimento acompanha, ou mesmo a do ortopedista do Hospital das Clínicas Nilton (Antônio José da Cruz Santos), que ficou cego no início da profissão e continua a exercê-la até hoje. "Cada história forma um pedacinho de mim. Por mais clichê que pareça, acabo me envolvendo com aquela pessoa", afirma.


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