Aprenda a comprar sem perder de vista investimentos para o futuro

Seja qual for seu atual perfil de consumidor, nunca é tarde para mudar e começar a economizar

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    • Gabriela Virdes

Antes uma consumidora desenfreada, a nutricionista Keli Colósio hoje faz contas e só decide por uma compra se não comprometer seu orçamento (Foto: Renato Lopes / Especial)
 

Que tipo de consumidor você é? Aquele que reflete sobre a necessidade da compra e se ela se enquadra no orçamento, ou que sofre de ressaca financeira após comprar por impulso? Independentemente do perfil, saiba que nunca é tarde para economizar e começar a pensar no futuro (confira dicas abaixo).  

A economista e professora de pós-graduação da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) Maria Angélica Luqueze acredita que a melhora vem "quando os consumidores tiverem consciência do dinheiro sob a ótica do investimento, pensando no futuro". Segundo ela, a crise econômica no Brasil já tem levado muitas pessoas a mudarem seus hábitos de consumo "através da busca de itens mais em conta ou de cortar gastos desnecessários", exemplifica.  

A nutricionista Keli Colósio, de 39 anos, é uma delas. Ela admite que foi uma consumidora desenfreada. "Comprava qualquer coisa. Bastava ter dinheiro que comprava e não lembrava que tinha contas a pagar no fim do mês. Minha compulsão era maior que meu controle financeiro. E, assim, me endividava", lembra.  

Quando se deu conta, Keli tinha inúmeros produtos com etiqueta em casa que nunca havia usado. Foi quando percebeu que, que, além de problemas financeiros, não estava bem psicologicamente. "Vi que precisava de ajuda e procurei por uma psicóloga. Foi ótimo, pois descobri que tinha compulsão por consumo e aprendi a controlar os gastos", conta.  

Segundo a nutricionista, o consumidor compulsivo acredita que precisa de tudo o que compra. "Era bom para meu ego ver tantas coisas com etiquetas", recorda. "Mas, depois da terapia, melhorei e, hoje, dou até conselhos financeiros, pois as pessoas percebem que não gasto à toa", orgulha-se.

Boas escolhas  

Para Keli, saber quanto vale o esforço para ganhar o dinheiro é essencial para fazer boas escolhas no orçamento. "Hoje sei que se tivesse poupado o dinheiro que gastei com besteiras teria uma excelente reserva financeira. Por isso, agora, só compro o que preciso e sou muito mais feliz assim, gastando conscientemente", conclui. 

Quanto trabalho vale sua compra? 

De acordo com Ana Leoni, superintendente de Informações e de Educação da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais), calcular o tempo que terá de trabalhar para pagar suas contas pode ajudar a driblar o impulso da compra.  

Vale fazer uma conta básica: quantas horas de trabalho valem essa compra? Se a pessoa, por exemplo, ganha R$ 2 mil por mês, então é preciso dividir esse valor pelo número de dias no mês. O resultado é R$ 66,66 por dia. Depois, basta dividir esse valor pelo número de horas trabalhadas - 8h para a maioria das pessoas. A conclusão é de que, para cada hora trabalhada, o ganho é de R$ 8,33. Desta forma, se o desejo de consumo for uma calça de R$ 100, será necessário trabalhar cerca de 12h para pagá-la.  

Saber quanto vale o esforço para ganhar o dinheiro é essencial para fazer boas escolhas para o orçamento.
Ana recomenda também a reflexão: "eu preciso disso? Tenho dinheiro? Precisa ser agora?".  

Também é importante saber se o preço pago justifica o prazer proporcionado. "Nada pior do que uma ressaca financeira: fazer e se arrepender. Fazendo isso, sua decisão será, no mínimo, mais consciente", afirma.  

5 DICAS PARA GUARDAR DINHEIRO EM 2018 

Respeite o dinheiro
O primeiro passo para guardar dinheiro é respeitá-lo, ou seja, ter consciência de que, para a imensa maioria das pessoas, ele é conquistado à custa de muito esforço e estresse. Quem não respeita o dinheiro, compra além do necessário e minimiza a importância de notas menores ou moedas. Não se trata de ser materialista e tornar o dinheiro uma obsessão, mas de "cultivá-lo" com a devida
atenção.

Aprenda a dizer não
É impossível economizar se a despesa é superior ao orçamento. Parece óbvio, mas muitos brasileiros endividados esquecem. Por isso, é fundamental aprender a dizer não aos outros e para si mesmo. Eventuais empréstimos para familiares e amigos, presentes caros e itens supérfluos no supermercado podem parecer inofensivos, mas comprometem a saúde financeira.

Peça desconto
Conseguir desconto é mais fácil do que se imagina. Normalmente, para o comerciante, vender mais barato é melhor que não vender. Portanto, não tenha vergonha de negociar sempre que possível, mesmo que o valor em questão não seja alto. A expressão "de grão em grão a galinha enche o papo" não existe à toa. Um desconto aqui e outro ali fazem diferença a longo prazo.

Invista
Não gastar dinheiro é impossível. Então, faça investimentos. Existem opções que combinam boa rentabilidade e baixo risco acessíveis mesmo para quem tem orçamento modesto. É o caso da previdência privada, que não deve ser vista apenas sob a luz da aposentadoria. O importante é investir com sabedoria. Pesquise, fale com o gerente de seu banco ou consulte um especialista.

Cuidado com o cartão de crédito
O cartão de crédito é certamente o maior inimigo de quem quer guardar dinheiro. A tentação de usar o "plástico", a ser pago apenas no mês seguinte, é grande, mas deve ser controlada. Não se engane: a conta vai chegar e pode ser assustadora se não houver um mínimo de planejamento. Outros perigos do cartão são o parcelamento (que cria a falsa sensação de controle) e a possibilidade de pagar o valor mínimo da fatura (os juros vão multiplicar a dívida). 

Fonte: Raphael Swierczynski, especialista em planejamento financeiro  

Sem dívidas 

A dona de casa Lúcia Antanazio, de 36 anos, orgulha-se de sempre manter o orçamento em dia. "Para isso, evito compras por impulso", diz. "Antes de qualquer compra, vejo a necessidade e, depois, verifico o preço. Dependendo do caso, mesmo querendo, não compro", completa. Ela garante que sabe quanto vale o esforço para ganhar o dinheiro. "Porém, sem dúvida, o maior ganho do consumo consciente é não ter dívidas", finaliza.  

Sob controle  

A vendedora Zélia Rodrigues, de 45 anos, era uma compradora compulsiva de roupas e sapatos. "Comprava tudo o que via, muitas vezes até sem experimentar, só pra ter o prazer da compra", conta. Depois, sofria de ressaca financeira. "Me endividei, sujei meu nome, fiquei sem crédito e me vi com um guarda-roupas cheio de itens nunca usados", lembra. Foi quando vendeu tudo o que nunca tinha usado e conseguiu acertar suas contas. "Hoje, ainda compro minhas coisinhas, mas com controle", diz. 

Análise>>>Fazer reserva é importante 

As pessoas já estão um pouco mais conscientes com relação ao consumo, mas ainda precisam melhorar. A gente vê conscientização com compartilhamento de caronas, na compra e venda de produtos usados, na troca de marcas mais caras por outras mais baratas e na disistência de itens supérfluos, por exemplo. Nestes casos percebemos que as pessoas estão mudando seus hábitos. Mas onde podem melhorar? Além de fazer a economia nos gastos, devem reservar parte da renda para investimentos, para a aposentadoria e para reserva financeira. Devido à crise no País, as pessoas mudaram seus hábitos de consumo. Mas, acredito que a melhora virá quando as pessoas tiverem consciência sobre o dinheiro sob a ótica do investimento, pensando no futuro, quer seja para a previdência, para uma emergência ou para a perda do emprego. Enfim, o ideal é conseguir reservar parte da renda embora, hoje seja muito difícil com o pensamento no futuro. Lembrando que, se esta pessoa está deixando de consumir no presente, terá benefícios mais para frente, como um conforto ou uma segurança em momentos de dificuldade.  

Maria Angélica Luqueze, economista e professora pós-graduação da FAAP


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